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Moro numa cidade chamada Amiens, que fica a cerca de cem
quilómetros de Paris e tem 138
mil
habitantes. É uma cidade que durante
muito tempo teve uma mono indústria - a indústria do veludo - e se apoiou
nela. Quando este tipo de produto caiu juntamente com as fábricas, houve
muito desemprego. A região tem muitas pessoas com pouca formação porque
havia sempre trabalho, coisa que agora não acontece.
Cardan
Trabalho numa associação que existe há 22 anos (têm aí um
papel que diz 21, mas entretanto passou um ano...), e que começou a
trabalhar naquilo a que chamamos "bolsas de pobreza". Íamos por aqueles
bairros, com um caixote com alguns livros dentro, uns 30 livros mais ou
menos, para ler às crianças, porque ali elas não tinham livros em casa nem
ninguém que as levasse às bibliotecas.
Foi assim que este trabalho começou a ser feito, um
trabalho que também tem uma história. Antes desta associação, havia uma
associação criada em França no fim da guerra, que se chama "Aide à toute
détresse" ["Ajuda a todo o desespero"], uma associação que tem como
presidente a irmã do "Carlinhos de Gaulle"... que era "jogador centro" na
equipa da França durante a guerra e depois... Coisa que dá muita sorte
para ter subsídios... ajuda muito...
A nossa Associação, então, agarrou na ideia e fez esse
trabalho pelos bairros. Pouco a pouco, os pais das crianças começavam a
pedir que lhes preenchêssemos os papéis da assistência social, para pedir
isto ou aquilo, uma carta a pedir emprego...
Em vez de preenchermos esses papéis, começámos por
fazer-lhes uma proposta: que eles viessem a um lugar onde juntos faríamos
aquilo que sabíamos e que não havia razão nenhuma para eles não saberem
fazer.
O tempo foi passando, e a Associação continuou a
trabalhar em dois tipos de actividades.
Uma é a escola para adultos, feita segundo a ideia
daquele inglês da escola da liberdade (Summerhill): estamos sempre
abertos, as pessoas vêm e têm aulas do seu nível; se não, voltam depois ou
tomam um café... É um lugar onde entram e saem.
Depois, há essa outra actividade que é a leitura na rua e
nos bairros.
A Associação está organizada da seguinte forma: somos dez
(dentro de pouco tempo doze) pessoas assalariadas. Existem mais 30 que dão
aulas e outras tantas que vão ler para a rua, e existe ainda o concelho
que dirige a associação.
O que tentamos fazer, além das aulas, é que as pessoas
tenham os mesmos direitos de todos aqueles que podem ver espectáculos de
cultura, que podem estar com escritores. Ali eles podem ter tudo isso.
"Grupo de Cultura" ou "Club
Méditerranée"
Há dois anos, criámos um grupo a que inicialmente
chamámos "Grupo de Cultura". Eram pessoas de 40-50 anos que vinham para
aprender a ler e escrever, e que em conversa nos disseram que só tinham
ido ao cinema uma vez na vida, que nunca tinham ida às casas da cultura,
as casas de cultura feitas pelo... como é que se chama... pelo escritor
Malraux ..., André Malraux... O princípio, a ideia de "casa da cultura" é
que são para toda a gente, logo para eles também, mas eles não iam lá,
diziam ao princípio que era porque não tinham muito dinheiro, o dinheiro
suficiente para poder ir lá...
Então, propôs-se que todas as semanas (à segunda-feira)
aquele grupo se encontrasse para falar de cultura, quer dizer, contar como
é que conseguiram ir, o que é que viram, se gostaram ou não do que viram,
o que é que acham da forma como estão escritos os programas, etc... (Há
pessoas no grupo que ainda não sabem ler, a quem os programas são lidos e
há pessoas que vêm fazer essas leituras para nós.) E eles analisam aquilo
tudo. Ao fim de dois anos deste trabalho de análise e de participação em
espectáculos, o que eles dizem é que o dinheiro talvez não seja o maior
problema, que se pode arranjar... Estar ali onde está aquele pessoal bem
vestido (e eles não são bem vestidos...), isso ainda se pode suportar (ao
fim de dois anos de treino, eles conseguem-no bem!). Do que eles sentem
falta é de um lugar onde, todas as semanas, se possam encontrar e discutir
aquilo que pensam dessa cultura que é também uma cultura dominante..., um
lugar onde falar, onde se possam expressar mesmo que digam disparates,
onde possam falar das suas ideias.
Por exemplo, uma das pessoas que ali vai chama-se Joseph.
Fomos ver com ele um espectáculo feito por um árabe. Na segunda feira,
Joseph (que é um dos poucos que trabalha, e que foi ver aquele espectáculo
e que gostou do espectáculo do árabe) disse: "É muito difícil para mim
dizer isto, porque durante muito tempo eu pensei que os árabes me iam
roubar o trabalho". Ele pôde estar dentro de um pensamento que lhe foi
dado, porque não tinha acompanhamento nem lugar onde falar. E quando o
Joseph falou daquilo, muitas pessoas não estavam de acordo com ele, mas
ele teve o direito de dizer e nós tivemos também o direito de dizer também
que não estávamos de acordo com ele: talvez os árabes matem, mas mata-se
em tudo quanto é canto deste mundo...
Nós tínhamos chamado àquele grupo "Grupo de Cultura",
para poder preencher aqueles papéis para ter verbas..., mas eles
mudaram-lhe o nome. Chamam àquilo "Club Méditerranée" .... É mais
bonito... É que, para eles, a segunda-feira (o fim da tarde e um bocado da
noite) é dia de férias... O Domingo é à Segunda!
Outra coisa que nós estamos a fazer agora é, uma vez por
mês, encontros de um grupo de pessoas com um escritor com quem vão visitar
um edifício cultural. Eles chegam ali e não dizem nada... Não são
anunciados nem nada... Visitam, são recebidos (bem recebidos, mal
recebidos...), depois analisam aquilo. Agora, no principio do ano, vamos
produzir uns papéis em fotocópias, e aquilo vai ser um "guia cultural da
cidade" dos "incultos".
Também estamos, há dois anos, a preparar um dicionário.
Em França, às pessoas que vêm ali chamam-se "illettrés" [iletrados]. É uma
palavra muito dura e muito difícil. As pessoas que vão ao Cardan não
gostam nada dessa palavra , porque eles dizem que essa é uma mania das
pessoas que têm cultura, que sabem ler e escrever, que estão com vontade
de arrumar as pessoas, classificar, colocar em caixinhas. E quando eles
são colocados na caixa da "iliteracia"... (isso é uma outra discussão
muito chata em França...) são classificados e ao mesmo tempo são
desqualificados... e não gostam nada disso...
Uma vez, pediram-me para ir falar a um lugar daqueles em
que há políticos. E eu fui, e pedi a uma das pessoas que vão à associação
para ir também. Acabou por ser ele a falar em vez de mim. Melhor: fui eu
que não lhe roubei a vez. Foi mais isso, é mais justo dizer assim.
A Leitura Furiosa
Há oito anos atrás, quando nós ainda queríamos ir aos
lugares conhecer manifestações de literatura, falar com escritores, etc.,
não conseguíamos, porque, quando se encontravam os escritores, tinha que
se ter lido os livros deles para se poder falar um bocado. E, quando
chegávamos ali, ficávamos acanhados, com um pouco de medo de que "não
caísse bem".
Foi então que nós inventámos a Leitura Furiosa: se não
conseguimos estar com eles lá onde se reúnem de maneira tradicional, vamos
pedir-lhes que eles venham aqui e organizem coisas connosco.
Foi num momento em que o Jack Lang tinha feito uma
manifestação que se chamava "Fureur de Lire" [Fúria de ler]. E nós
explicámos todas as tentativas que tínhamos feito de participar na "Fúria
de Ler" e que, no fim de contas, não sabendo ler nem escrever nós ficámos
furiosos. Fizemos a nossa "leitura furiosa" dessa situação.
Para essa leitura furiosa da situação, convidámos
escritores a virem à associação, há já uns 8 ou 9 anos. Os primeiros
escritores a quem pedimos que viessem estar com estas pessoas disseram que
isso não era uma boa ideia, que não era assim que se devia trabalhar com
as pessoas porque isso não era bom para a classe dos escritores. Como é
que um escritor vem ter com pessoas que não sabem ler nem escrever? Qual é
o valor que ele vai ter? Se o faz, é um "reles" que não escreve bem...
Em Julho passado, um certo número de pessoas ligadas a
Pierre Bourdieu, escreveram um manifesto considerando que a arte e a
cultura que agora têm lugares reconhecidos estão a ficar estéreis. E que é
preciso criar lugares, inventá-los.
Este lugar já está inventado. Eles não dizem que estão a
descobrir a pólvora, dizem que é preciso dar valor a esses outros lugares
e pedem aos políticos que ajudem esses projectos, mas sobretudo sem
intervir, só acompanhando, ajudando, olhando de uma maneira que não seja
destrutiva.
Em relação á Leitura Furiosa, a reacção foi dizer que
isso não poderia ser assim, porque é o tipo de coisa que tira o valor à
literatura. Talvez... porque não... não sei... e, para empregar uma
expressão brasileira, "não quero saber e tenho raiva de quem sabe".
O que eu quero saber é que aquelas pessoas ali estão com
vontade de fazer.. Que elas são excluídas, que elas são pobres e que todos
os sistemas de ajuda, que eu acho que são bons também - o "salário mínimo
de inserção"-, ao mesmo tempo empobrecem (social, intelectual, e
culturalmente) as pessoas. Então, eu agarro nisto e coloco ao lado da
resposta daquele escritor que me disse que não era forma de fazer, porque
o resultado seria o empobrecimento da literatura.
Devemos continuar este tipo de ideias. Ainda por cima,
acho que isso só poderia enriquecer a literatura ... Mas era eu que dizia
(e eu não escrevo, e ainda bem...). E eram as pessoas que diziam que
estavam de acordo em se encontrarem com os escritores, embora tivessem
muito medo ... (acredito que de vez em quando os escritores também têm
muito medo de se encontrarem com elas porque não sabem o que é que vai
acontecer...)
Cada Leitura Furiosa dura 3 dias: sexta, sábado e
domingo.
Na sexta-feira, há um encontro. Durante todo o dia o
grupo, de 4 ou 5 pessoas, às vezes menos, fala com um escritor. Na noite
de sexta para sábado, o escritor deve escrever um texto curto (novela ou
conto), que é lido para o grupo no sábado pela manhã e discutido, porque
às vezes alguns escritores agarram em coisas que foram ditas nas
conversas, momentos muito íntimos que não podem ser escritos.
Por vezes aquele é o único lugar em que as pessoas podem
falar do que viveram. Por exemplo, podem dizer que, de vez em quando, não
podem ir às aulas porque têm de ir buscar comida à sopa dos pobres, e que
têm de fazê-lo às escondidas para que os filhos não saibam. Isto é forte
como momento do texto, mas não pode ser escrito... Então, no sábado de
manhã, eles falam disso.
Ao meio dia, todos grupos se encontram num lugar, num
liceu, para almoçar - da última vez havia 32 escritores ou seja 32 grupos
- e à tarde vão às bibliotecas e às livrarias. Depois, voltam para a Casa
da Cultura (tivemos o direito de utilizar a Casa da Cultura...). Enquanto
eles vão às livrarias e às bibliotecas, o texto é ilustrado e depois,
durante a noite, fazemos as fotocópias para distribuir no domingo, altura
em que há leitura pública, no teatro.
Um exemplo do que pode acontecer: havia um grupo de
mulheres que faziam limpeza, por sinal muito mal tratadas pela vida.
Sempre que havia Leitura Furiosa", uma delas, que vivia numa casa pouco
salubre, dizia sempre "eu vou amanhã", porque tinha vergonha de
si, de
morar num lugar daqueles, de ter que fazer limpezas, de ter aquele salário
mínimo de inserção. Depois de ter estado com uma escritora, na segunda
feira seguinte, ela foi com os documentos (uns papéis que tinha que
preencher...), e como anexo para argumentar a razão pela qual ela deveria
ter direito a uma casa decente para morar, entregou uma fotocópia do texto
que a escritora tinha feito.
Os subsídios
Existem modos de encontrar subsídios em França. Por
exemplo, para fazer funcionar a escola de adultos, temos de pedir verbas
ao Ministério do Trabalho- aquele que tem o direito (não será antes o
dever?...) de tratar dos assuntos que dizem respeito à formação
profissional: saber ler e escrever é "formação profissional"; quando não
se sabe ler, (apesar de a escola ser obrigatória em França!), chama-se
então "promoção social". O Ministério do Trabalho faz a "formação" (as
acções que são consideradas as "formações profissionais"), mas que depende
da "promoção social". Paga, se conseguirmos regatear bem, cerca de 28
francos por hora (900$00 por cada hora de aula).
O que acontece com este trabalho que fazemos, é que, como
as pessoas podem entrar e sair quando querem, "bagunça-se" um bocado - é
por isso que empregaram um brasileiro!... O Peter Kammerer ainda agora
falava de caos, é isso mesmo: desorganização, "bagunça". E, ainda por
cima, somos desobedientes: quando nos dão para fazer aquele trabalho para
fazer aquele trabalho os tais 28 francos/hora, pedem muitos papéis e nós
respondemos que, por esse dinheiro, não podemos fazer os papéis! Ou damos
as aulas, trabalhamos para o público (para as pessoas com quem queremos
trabalhar), ou preenchemos papéis. O que não podemos é fazer as duas
coisas ao mesmo tempo!
Aqui está a nossa maneira (dos que trabalhamos nessa
Associação), de nos identificarmos com o público. É uma associação que
trabalha, principalmente, no sentido da desobediência.
Também podemos pedir verbas a um "clube administrativo"
onde estão os municípios, os ministérios também, os departamentos
[autarquias].
Quando vamos pedir ajuda para poder funcionar, para poder
continuar a viver bem com o nosso mau carácter, também há confusão, porque
eles querem financiar aquilo que interessa a todas as correntes políticas
ao mesmo tempo. Por isso, se não se conseguir fazer uma coisa que
"interesse a todos", não se consegue com facilidade a ajuda. Ainda por
cima, todos os anos há que fazer um projecto que seja inovador, que faça
coisas novas que nunca tenham existido antes.
E todos os anos lhes apresentamos um projecto que é a
nossa novidade: a de cada ano ainda estarmos vivos e podermos pedir
subsídios para que as pessoas que vêm trabalhar ali possam encontrar
escritores...
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