o cardan

Luiz Rosas

 

2000

 

Moro numa cidade chamada Amiens, que fica a cerca de cem quilómetros de Paris e tem 138 mil habitantes. É uma cidade que durante muito tempo teve uma mono indústria - a indústria do veludo - e se apoiou nela. Quando este tipo de produto caiu juntamente com as fábricas, houve muito desemprego. A região tem muitas pessoas com pouca formação porque havia sempre trabalho, coisa que agora não acontece.

Cardan

Trabalho numa associação que existe há 22 anos (têm aí um papel que diz 21, mas entretanto passou um ano...), e que começou a trabalhar naquilo a que chamamos "bolsas de pobreza". Íamos por aqueles bairros, com um caixote com alguns livros dentro, uns 30 livros mais ou menos, para ler às crianças, porque ali elas não tinham livros em casa nem ninguém que as levasse às bibliotecas.

Foi assim que este trabalho começou a ser feito, um trabalho que também tem uma história. Antes desta associação, havia uma associação criada em França no fim da guerra, que se chama "Aide à toute détresse" ["Ajuda a todo o desespero"], uma associação que tem como presidente a irmã do "Carlinhos de Gaulle"... que era "jogador centro" na equipa da França durante a guerra e depois... Coisa que dá muita sorte para ter subsídios... ajuda muito...

A nossa Associação, então, agarrou na ideia e fez esse trabalho pelos bairros. Pouco a pouco, os pais das crianças começavam a pedir que lhes preenchêssemos os papéis da assistência social, para pedir isto ou aquilo, uma carta a pedir emprego...

Em vez de preenchermos esses papéis, começámos por fazer-lhes uma proposta: que eles viessem a um lugar onde juntos faríamos aquilo que sabíamos e que não havia razão nenhuma para eles não saberem fazer.

O tempo foi passando, e a Associação continuou a trabalhar em dois tipos de actividades.

Uma é a escola para adultos, feita segundo a ideia daquele inglês da escola da liberdade (Summerhill): estamos sempre abertos, as pessoas vêm e têm aulas do seu nível; se não, voltam depois ou tomam um café... É um lugar onde entram e saem.

Depois, há essa outra actividade que é a leitura na rua e nos bairros.

A Associação está organizada da seguinte forma: somos dez (dentro de pouco tempo doze) pessoas assalariadas. Existem mais 30 que dão aulas e outras tantas que vão ler para a rua, e existe ainda o concelho que dirige a associação.

O que tentamos fazer, além das aulas, é que as pessoas tenham os mesmos direitos de todos aqueles que podem ver espectáculos de cultura, que podem estar com escritores. Ali eles podem ter tudo isso.

 

"Grupo de Cultura" ou "Club Méditerranée"

Há dois anos, criámos um grupo a que inicialmente chamámos "Grupo de Cultura". Eram pessoas de 40-50 anos que vinham para aprender a ler e escrever, e que em conversa nos disseram que só tinham ido ao cinema uma vez na vida, que nunca tinham ida às casas da cultura, as casas de cultura feitas pelo... como é que se chama... pelo escritor Malraux ..., André Malraux... O princípio, a ideia de "casa da cultura" é que são para toda a gente, logo para eles também, mas eles não iam lá, diziam ao princípio que era porque não tinham muito dinheiro, o dinheiro suficiente para poder ir lá...

Então, propôs-se que todas as semanas (à segunda-feira) aquele grupo se encontrasse para falar de cultura, quer dizer, contar como é que conseguiram ir, o que é que viram, se gostaram ou não do que viram, o que é que acham da forma como estão escritos os programas, etc... (Há pessoas no grupo que ainda não sabem ler, a quem os programas são lidos e há pessoas que vêm fazer essas leituras para nós.) E eles analisam aquilo tudo. Ao fim de dois anos deste trabalho de análise e de participação em espectáculos, o que eles dizem é que o dinheiro talvez não seja o maior problema, que se pode arranjar... Estar ali onde está aquele pessoal bem vestido (e eles não são bem vestidos...), isso ainda se pode suportar (ao fim de dois anos de treino, eles conseguem-no bem!). Do que eles sentem falta é de um lugar onde, todas as semanas, se possam encontrar e discutir aquilo que pensam dessa cultura que é também uma cultura dominante..., um lugar onde falar, onde se possam expressar mesmo que digam disparates, onde possam falar das suas ideias.

Por exemplo, uma das pessoas que ali vai chama-se Joseph. Fomos ver com ele um espectáculo feito por um árabe. Na segunda feira, Joseph (que é um dos poucos que trabalha, e que foi ver aquele espectáculo e que gostou do espectáculo do árabe) disse: "É muito difícil para mim dizer isto, porque durante muito tempo eu pensei que os árabes me iam roubar o trabalho". Ele pôde estar dentro de um pensamento que lhe foi dado, porque não tinha acompanhamento nem lugar onde falar. E quando o Joseph falou daquilo, muitas pessoas não estavam de acordo com ele, mas ele teve o direito de dizer e nós tivemos também o direito de dizer também que não estávamos de acordo com ele: talvez os árabes matem, mas mata-se em tudo quanto é canto deste mundo...

Nós tínhamos chamado àquele grupo "Grupo de Cultura", para poder preencher aqueles papéis para ter verbas..., mas eles mudaram-lhe o nome. Chamam àquilo "Club Méditerranée" .... É mais bonito... É que, para eles, a segunda-feira (o fim da tarde e um bocado da noite) é dia de férias... O Domingo é à Segunda!

Outra coisa que nós estamos a fazer agora é, uma vez por mês, encontros de um grupo de pessoas com um escritor com quem vão visitar um edifício cultural. Eles chegam ali e não dizem nada... Não são anunciados nem nada... Visitam, são recebidos (bem recebidos, mal recebidos...), depois analisam aquilo. Agora, no principio do ano, vamos produzir uns papéis em fotocópias, e aquilo vai ser um "guia cultural da cidade" dos "incultos".

Também estamos, há dois anos, a preparar um dicionário. Em França, às pessoas que vêm ali chamam-se "illettrés" [iletrados]. É uma palavra muito dura e muito difícil. As pessoas que vão ao Cardan não gostam nada dessa palavra , porque eles dizem que essa é uma mania das pessoas que têm cultura, que sabem ler e escrever, que estão com vontade de arrumar as pessoas, classificar, colocar em caixinhas. E quando eles são colocados na caixa da "iliteracia"... (isso é uma outra discussão muito chata em França...) são classificados e ao mesmo tempo são desqualificados... e não gostam nada disso...

Uma vez, pediram-me para ir falar a um lugar daqueles em que há políticos. E eu fui, e pedi a uma das pessoas que vão à associação para ir também. Acabou por ser ele a falar em vez de mim. Melhor: fui eu que não lhe roubei a vez. Foi mais isso, é mais justo dizer assim.

 

A Leitura Furiosa

Há oito anos atrás, quando nós ainda queríamos ir aos lugares conhecer manifestações de literatura, falar com escritores, etc., não conseguíamos, porque, quando se encontravam os escritores, tinha que se ter lido os livros deles para se poder falar um bocado. E, quando chegávamos ali, ficávamos acanhados, com um pouco de medo de que "não caísse bem".

Foi então que nós inventámos a Leitura Furiosa: se não conseguimos estar com eles lá onde se reúnem de maneira tradicional, vamos pedir-lhes que eles venham aqui e organizem coisas connosco.

Foi num momento em que o Jack Lang tinha feito uma manifestação que se chamava "Fureur de Lire" [Fúria de ler]. E nós explicámos todas as tentativas que tínhamos feito de participar na "Fúria de Ler" e que, no fim de contas, não sabendo ler nem escrever nós ficámos furiosos. Fizemos a nossa "leitura furiosa" dessa situação.

Para essa leitura furiosa da situação, convidámos escritores a virem à associação, há já uns 8 ou 9 anos. Os primeiros escritores a quem pedimos que viessem estar com estas pessoas disseram que isso não era uma boa ideia, que não era assim que se devia trabalhar com as pessoas porque isso não era bom para a classe dos escritores. Como é que um escritor vem ter com pessoas que não sabem ler nem escrever? Qual é o valor que ele vai ter? Se o faz, é um "reles" que não escreve bem...

Em Julho passado, um certo número de pessoas ligadas a Pierre Bourdieu, escreveram um manifesto considerando que a arte e a cultura que agora têm lugares reconhecidos estão a ficar estéreis. E que é preciso criar lugares, inventá-los.

Este lugar já está inventado. Eles não dizem que estão a descobrir a pólvora, dizem que é preciso dar valor a esses outros lugares e pedem aos políticos que ajudem esses projectos, mas sobretudo sem intervir, só acompanhando, ajudando, olhando de uma maneira que não seja destrutiva.

Em relação á Leitura Furiosa, a reacção foi dizer que isso não poderia ser assim, porque é o tipo de coisa que tira o valor à literatura. Talvez... porque não... não sei... e, para empregar uma expressão brasileira, "não quero saber e tenho raiva de quem sabe".

O que eu quero saber é que aquelas pessoas ali estão com vontade de fazer.. Que elas são excluídas, que elas são pobres e que todos os sistemas de ajuda, que eu acho que são bons também - o "salário mínimo de inserção"-, ao mesmo tempo empobrecem (social, intelectual, e culturalmente) as pessoas. Então, eu agarro nisto e coloco ao lado da resposta daquele escritor que me disse que não era forma de fazer, porque o resultado seria o empobrecimento da literatura.

Devemos continuar este tipo de ideias. Ainda por cima, acho que isso só poderia enriquecer a literatura ... Mas era eu que dizia (e eu não escrevo, e ainda bem...). E eram as pessoas que diziam que estavam de acordo em se encontrarem com os escritores, embora tivessem muito medo ... (acredito que de vez em quando os escritores também têm muito medo de se encontrarem com elas porque não sabem o que é que vai acontecer...)

Cada Leitura Furiosa dura 3 dias: sexta, sábado e domingo.

Na sexta-feira, há um encontro. Durante todo o dia o grupo, de 4 ou 5 pessoas, às vezes menos, fala com um escritor. Na noite de sexta para sábado, o escritor deve escrever um texto curto (novela ou conto), que é lido para o grupo no sábado pela manhã e discutido, porque às vezes alguns escritores agarram em coisas que foram ditas nas conversas, momentos muito íntimos que não podem ser escritos.

Por vezes aquele é o único lugar em que as pessoas podem falar do que viveram. Por exemplo, podem dizer que, de vez em quando, não podem ir às aulas porque têm de ir buscar comida à sopa dos pobres, e que têm de fazê-lo às escondidas para que os filhos não saibam. Isto é forte como momento do texto, mas não pode ser escrito... Então, no sábado de manhã, eles falam disso.

Ao meio dia, todos grupos se encontram num lugar, num liceu, para almoçar - da última vez havia 32 escritores ou seja 32 grupos - e à tarde vão às bibliotecas e às livrarias. Depois, voltam para a Casa da Cultura (tivemos o direito de utilizar a Casa da Cultura...). Enquanto eles vão às livrarias e às bibliotecas, o texto é ilustrado e depois, durante a noite, fazemos as fotocópias para distribuir no domingo, altura em que há leitura pública, no teatro.

Um exemplo do que pode acontecer: havia um grupo de mulheres que faziam limpeza, por sinal muito mal tratadas pela vida. Sempre que havia Leitura Furiosa", uma delas, que vivia numa casa pouco salubre, dizia sempre "eu vou amanhã", porque tinha vergonha de si, de morar num lugar daqueles, de ter que fazer limpezas, de ter aquele salário mínimo de inserção. Depois de ter estado com uma escritora, na segunda feira seguinte, ela foi com os documentos (uns papéis que tinha que preencher...), e como anexo para argumentar a razão pela qual ela deveria ter direito a uma casa decente para morar, entregou uma fotocópia do texto que a escritora tinha feito.

 

Os subsídios

Existem modos de encontrar subsídios em França. Por exemplo, para fazer funcionar a escola de adultos, temos de pedir verbas ao Ministério do Trabalho- aquele que tem o direito (não será antes o dever?...) de tratar dos assuntos que dizem respeito à formação profissional: saber ler e escrever é "formação profissional"; quando não se sabe ler, (apesar de a escola ser obrigatória em França!), chama-se então "promoção social". O Ministério do Trabalho faz a "formação" (as acções que são consideradas as "formações profissionais"), mas que depende da "promoção social". Paga, se conseguirmos regatear bem, cerca de 28 francos por hora (900$00 por cada hora de aula).

O que acontece com este trabalho que fazemos, é que, como as pessoas podem entrar e sair quando querem, "bagunça-se" um bocado - é por isso que empregaram um brasileiro!... O Peter Kammerer ainda agora falava de caos, é isso mesmo: desorganização, "bagunça". E, ainda por cima, somos desobedientes: quando nos dão para fazer aquele trabalho para fazer aquele trabalho os tais 28 francos/hora, pedem muitos papéis e nós respondemos que, por esse dinheiro, não podemos fazer os papéis! Ou damos as aulas, trabalhamos para o público (para as pessoas com quem queremos trabalhar), ou preenchemos papéis. O que não podemos é fazer as duas coisas ao mesmo tempo!

Aqui está a nossa maneira (dos que trabalhamos nessa Associação), de nos identificarmos com o público. É uma associação que trabalha, principalmente, no sentido da desobediência.

Também podemos pedir verbas a um "clube administrativo" onde estão os municípios, os ministérios também, os departamentos [autarquias].

Quando vamos pedir ajuda para poder funcionar, para poder continuar a viver bem com o nosso mau carácter, também há confusão, porque eles querem financiar aquilo que interessa a todas as correntes políticas ao mesmo tempo. Por isso, se não se conseguir fazer uma coisa que "interesse a todos", não se consegue com facilidade a ajuda. Ainda por cima, todos os anos há que fazer um projecto que seja inovador, que faça coisas novas que nunca tenham existido antes.

E todos os anos lhes apresentamos um projecto que é a nossa novidade: a de cada ano ainda estarmos vivos e podermos pedir subsídios para que as pessoas que vêm trabalhar ali possam encontrar escritores...