a caldeira 213

 

Ângelo Ferreira de Sousa

 

2000

 

A Caldeira 213 é, ou melhor será, uma associação do Porto. Digo "será" porque neste país legalizar uma associação é muito complicado, pelo menos para pessoas como nós que têm uma inabilidade total para lidar com papéis e legalidades. Será uma associação constituída quase exclusivamente por finalistas ou recém licenciados de Belas-Artes. Existimos desde Janeiro, estamos quase a fazer um ano, e vamos ser, espero eu, brevemente uma associação. Costumo dizer que temos uma pré-história e um pretexto para existirmos.

A pré-história é a seguinte: saímos das Belas-Artes, que é uma escola que parou lá para 1850, que está no século XIX, e portanto nós não gostámos de andar naquela escola. Por isso fomo-nos associando. E a maior parte de nós, o núcleo duro do que hoje é a Caldeira 213, participou na Associação de Estudantes de Belas Artes durante três longos anos. E esta pré-história marca um bocado o nosso carácter. Nós vimos da luta contra as propinas, da luta para mudar a estrutura e o academismo das Belas Artes, contra os professores de geometria e a falta de qualificação da maior parte deles.

Também estivemos noutras lutas como a das gravuras do Côa (tínhamos uma associação que fez imensas coisas para alertar as pessoas do crime que seria a construção da barragem), ainda chegámos a ir pintar uns murais contra as incineradoras em Estarreja (está ali o Jaime Pinho que não me deixa mentir...). Há dias vi as fotografias dessa acção que fizemos há uns quatro ou cinco anos e estava lá 70% da Caldeira, ou seja, sete pessoas, porque nós somos mais ou menos dez, onze pessoas. Esta pré-história marca um pouco o nosso carácter.

Saímos da Associação de Estudantes, alguns de nós fomos acabando o curso, e ficámos um bocado perdidos sem saber muito bem o que fazer. Havia o grave risco de nos desagregarmos e de perder aquilo que é, ao fim e ao cabo, o melhor que as Belas Artes dá: aquele convívio entre os estudantes, as discussões que se geram quando se trabalha lado a lado, as conversas de atelier e essas coisas.

O que nós verificávamos é que a maior parte dos estudantes que acabavam o quinto ano nem sequer voltavam a pintar ou a produzir objectos artísticos porque, pura e simplesmente, iam dar aulas, iam procurar o seu emprego, desagregavam-se, o entusiasmo desaparecia.

Não existe arte, particularmente arte contemporânea, sem uma relação muitíssimo directa com o público. Os espaços, tanto os comerciais como os institucionais, estão absolutamente fechados a essas novas aventuras que não garantem nem reconhecimento institucional e muito menos comercial e, portanto, a coisa fica muito complicada. A maior parte dos que acabam o curso, de facto, deixa completamente de produzir, entra numa vida rotineira. Esse era o grande perigo.

E temos um pretexto, que foi a sorte de termos encontrado um espaço fantástico e relativamente barato no centro do Porto, num sítio que é um gueto de prostituição, de droga e de pobreza, a Rua dos Caldeireiros. Conseguimos aí um espaço que é muito curioso, que desfaz a diferença de cota entre duas ruas e que vai tendo uma série de socalcos.

Nós dividimos mais ou menos esses socalcos: a última parte, a parte de baixo, são os nossos ateliers, onde trabalhamos; a parte de cima, a parte da loja e da primeira cave, transformámo-la num espaço público.

Abriu em Janeiro e até agora teremos tido perto de vinte exposições (antes da sessão começar, eu estava a tentar contabilizar as exposições aí feitas, mas ainda não consegui muito bem...). Temos tido um calendário regular de exposições, tanto nossas, daquilo que produzimos nos ateliers em baixo, como de outras pessoas convidadas dentro da nossa área das artes visuais, para intervirem naquele local que julgo que é muito sugestivo.

Não temos tido nenhuns subsídios, vivemos das nossas quotas. Pretendemos agora editar um catálogo do primeiro ano da Caldeira, com imagens das exposições, os textos das discussões que fomos tendo e, portanto, os resultados.

O Porto tem sofrido uma alteração muito significativa ao nível das artes visuais nos últimos anos: abriu o Museu de Serralves, o Centro Português de Fotografia, há a Casa das Artes, e uma concentração de galerias na Rua Miguel Bombarda. Houve uma definição muito clara do que é o "centro" da cultura, coisa a que não estávamos habituados. Foi uma diferença brutal. Tem aspectos muito positivos e tem o seu lado perverso. Nós trabalhamos à margem dessas estruturas com que temos pouco que ver.

Algumas das nossas propostas são provocações, se assim se pode dizer, ao que habitualmente se faz. Começámos por uma exposição que se chamava "DESAUTORIZADO" e que brincava um bocado à cerca da ideia de "autor" na arte contemporânea. A maior parte da pessoas, mesmo que não reflicta muito sobre a questão das artes, tem a ideia de que a assinatura é mais importante do que o próprio trabalho. A relação entre o dinheiro, a autoria e as artes – mesmo as mais marginais que entretanto foram absorvidas – parece-nos bastante divertido. Fizemos uma espécie de jogo que era apresentar os nossos trabalhos sem haver qualquer etiqueta que identificasse o autor. As pessoas ficavam sem saber qual era o artista que tinha feito aquele trabalho. Primeiro achei que aquilo era apenas um jogo. Depois comecei a achar que era mais importante, ao ver como as pessoas ficavam irritadas. Alguns artistas chegaram mesmo a ser agressivos. Perguntavam: mas afinal porque é que vocês não querem que o vosso nome apareça lá? Esta questão da autoria tem sido uma questão central para nós.

Temos também a trabalhar connosco – nós somos bastante eclécticos, está por encontrar o "denominador comum" - um grupo de quatro raparigas, a "Zoina" (uma palavra portuguesa pouco conhecida que quer dizer "mulher mal comportada") que reflecte sobre o papel da mulher e as questões habitualmente chamadas "feministas". A "Zoina" organizou uma segunda exposição chamada "Pink Lotion", o nome daquele produto de cosmética muito famoso. Foram distribuídos envelopes que continham uma folha de papel cor de rosa fluorescente com um textinho. As pessoas tinham que responder a um desafio prático, político-sexual. Foram distribuídos mais de uma centena de envelopes a pessoas que nunca tiveram qualquer tipo de trabalho nas artes plásticas e a artistas relativamente conhecidos. Essa exposição foi muito interessante. Juntou trabalhos de setenta e tal pessoas, com uma mistura de trabalhos de "fora do mundo das artes" até trabalhos bastante mais elaborados. Mais uma vez havia a questão da autoria e de estender ao máximo os limites e fronteiras da arte contemporânea actualmente.

Devido ao facto de nós estarmos na Rua dos Caldeireiros que é uma zona extremamente dura da cidade, que se foi transformando num gueto, pagamos uma renda muito baixa, apesar de estarmos a cinco minutos da Rua dos Clérigos onde as rendas são extremamente caras. A distância a nível social é muito grande.

Temos a intenção de trabalhar com a população, o que é possível naquela rua. Temos tido mais sucesso ao nível das crianças que se divertem bastante com os nossos trabalhos, que têm ido ver as nossas exposições e os nossos "objectos malucos", como elas dizem.

Tínhamos o projecto de pedir às pessoas da rua um objecto com que elas tenham uma relação sentimental próxima que ficaria patente lá na galeria. Isso levaria as pessoas a irem ver os seus objectos e os dos vizinhos e era interessante para nós porque mais uma vez trabalharíamos à volta da questão da autoria e das fronteiras na arte contemporânea. Fizemos algumas abordagens à pessoas da rua, tivemos as respostas mais divertidas: uns iam dar a televisão, outro o retrato da filha, outro o poster do FCP...

Soubemos entretanto que o grupo americano Material Group tinha feito o mesmo nos anos 70 nos EUA. E o projecto ficou um bocado congelado. Mas o que é a novidade hoje em dia?

Temos sido ignorados pela televisão e pela rádio, mas temos tido bastante público. E temos sido convidados para intervenções noutros locais, uma vez que a Caldeira 213 é uma iniciativa "alternativa" diferente e menos efémera – já temos um ano - do que as que têm existido.

 

[Entretando a Caldeira 213 fechou]