EM
NOVEMBRO
É DE ABRIL E MAIO QUE ME LEMBRO
nov. - dez. 2005 |
|
três fins de semana de confronto com o que temos e o que queremos |
|
Se há épocas em que não se pode conseguir tudo – e alguma terá havido ou haverá em que tal aconteceu ou venha a acontecer? – não há épocas em que não se possa, pelo menos, dizer o tudo que queremos, tudo o que não nos satisfaz, de que não gostamos, que nos põe “de lado” ou “de fora”, e tentar romper o quadro de “desejos” dentro do qual as políticas autorizadas, sufragadas, dominantes, maioritárias ou minoritárias (e seus entendimentos entre si e os entendimentos que temos delas) nos põem a pensar e a agir. Neste momento, em nome da “liberdade” e do “pluralismo”, e para quase todos do “desenvolvimento”, e para alguns de uma “igualdade” com a “diferença” dentro. Uma sociedade (um regime?) que se foi construindo, não a partir do PREC (e seus “excessos”) mas contra ele (e não contra a ditadura a que este pôs fim) retira a muita gente os instrumentos (que já teve) para pensar, para propor, para ser ouvido, e também o “apetite” do fazer e do como fazer para viver uma outra vida que chegou a viver ou a entrever. E torna muitos outros – os que nasceram depois ou os que não deram nessas alturas atenção a “pormenores” (porque muito “vencedores”? porque muito “vencidos”?) – incapazes de imaginar essa “outra” vida ou considerarem, que é inútil fazê-lo. Ou seja, para viver (no verdadeiro sentido da palavra). O que propomos: -
Tentar retirar do esquecimento - ou melhor: da mais ou menos
consensual distorção – os cerca de dois anos que se seguiram ao
25 de Abril de 74, com ou sem “excessos”, que terão sido os únicos
“até ver” em que as pessoas neste país “agiram,
comunicaram, decidiram, enfim, intensamente viveram". (João Martins
Pereira). - Mostrar, descrever, analisar o que se passa hoje – coisa que o reduzido e redutor vocabulário instalado não permite fazer facilmente. - Voltar a colocar na ordem (ou desordem) do dia, nas vidas e no pensamento de alguns, aquela tarefa que uma parte da oposição ao anterior regime, no interior da CDE de 1969, formulou assim: “como fazer recuar as fronteiras do possível” Para isso, organizámos 3 fins de semana em 3 terras diferentes – Caldas da Rainha, Lisboa, Porto – com programas diferentes e pessoas diversas conforme as características dos lugares. Para lá do lançamento do número 0 de uma publicação - PREC (Põe, Rapa, Empurra, Cai) - , de exposições, filmes, textos e músicas, bancas – com o que julgamos contribuir para o alargamento do terreno do saber de cada um – os fins de semana estarão centrados em debates a partir de três temas em que os “excessos” do “verão quente” serão ponto de partida e referência : 1.
O que é isso de democracia ? Uns chamam ao regime político que temos (ou que temos de querer) “democracia avançada”, outros dizem querer uma “democracia participativa”, vai-se falando menos de “democracia musculada”, continua a falar-se (talvez menos) de “democracia pluralista”. Em certos casos, estas expressões são substituídas por “Estado de Direito”. A sociedade passou a chamar-se “sociedade civil”, etc., etc. O que propomos discutir: pode haver democracia (independentemente do adjectivo pelo qual é caracterizada) com tantos desempregados, tantos “sem papéis”, tanta gente dormindo pelas ruas, tanta gente fechada em casa (nos seus “ócios conquistados”) a consumir “quintas de celebridades”, “bigbrothers”, “fiéis ou infiéis”, “senhoras donas ladys” como coisa “natural” e “divertimento possível e apetecível”? E com tão poucos “proprietários” da “comunicação social”? E com tão poucos a “fazerem” política? Pode chamar-se “democracia” a uma sociedade em que a política significa trabalhar para eleger ou ser eleito como “representante” – de satisfações ou insatisfações? 2.
Arte e política No regime em que vivemos a cultura passou a ter uma função e um estatuto até há pouco insuspeitados. E as artes? E a arte? A mesma coisa? Tema geralmente pouco abordado pelos fazedores de política, é objecto de bastante consenso entre “praticantes” (que por vezes reclamam ao regime “políticas culturais”), “organizadores” (instituições ou pessoas cuja visibilidade se foi tornando maior do que a dos praticantes) e consumidores (que têm limitado a procura à oferta). Ora, “uma sociedade em que a maior parte da comunicação artística não é objecto de discussão não merece o nome de democracia” (Joost Smiers). O triunfo do mercado da arte (inclui-se aqui a literatura) – em toda a sua pequenez - tem afastado os artistas das vidas associativas, sobretudo com outros que o não são. Porque o seu prestígio fica abalado? Porque as vendas diminuem? Porque a sua sobrevivência finalmente como “profissionais” fica ameaçada? O que propomos discutir: em que é que a relação que hoje existe entre arte e política incide no próprio conceito e na prática da democracia? Qual o papel que tem nisto a distribuição e a relação que mantém com a produção? 3.
Como fazer recuar as fronteiras do possível ? A frase que fomos desenterrar dum passado, ano de 1969 (altura em que começava a tornar-se claro, pelo menos para alguns, que nem o saber e a ciência eram “neutros”), tinha como inimigo a ditadura (o que não acontece evidentemente agora) e procurava colocar a acção “possível” no terreno da “conquista” (de um espaço) e não na “resistência” dentro do terreno a que nos confinam. Tinha-se percebido que “impossível” era uma arma poderosa de quem tem o poder. O que propomos discutir: é possível usar este instrumento de pensamento e de acção (desaparecido) no tempo presente? Em que domínios? Como? Em que lugares? E será isso possível no quadro das dúbias designações ressuscitadas de passados (ou mais ou menos recentes) pelas quais as pessoas se designam ou são designadas, como são, por exemplo, “cidadãos” e/ou “famílias”? O esquema dos debates será o mesmo para cada tema em cada lugar : intervenções de quem julgamos ter coisas para dizer que não são aquelas a que temos acesso fácil, algumas vindas de além “fronteiras”; discussões em grupo sobre temas mais concretos onde cada um conte o que sabe e o que quer, encontre e faça encontrar ideias, entre as velhas e as novas com que vai vivendo. E se depois dos fins de semana, conseguíssemos fazer um “dicionário” de “ideias feitas”, como outros fizeram noutros tempos, contendo e definindo aquelas ideias (e palavras) que gostaríamos de conseguir subverter? Concebemos estes debates como um pontapé de saída para qualquer coisa que não sabemos o que é (pertence a todos os que quiserem o que se seguirá ou não) e que fossem úteis sobretudo para quem neles participar. E era bom que fosse de uma ponta à outra que o fizessem. Setembro 2005
|
|
António Louçã, António Maria Sousa, Clara Boléo, Diana Dionísio, Eduarda Dionísio, Gabriela Dias, Joana Frazão, João Bernardo, João Rodrigues, Jorge Silva Melo, Manuela Torres, Marta Caldas, Miguel Serras Pereira, Natércia Coimbra, Pedro Rodrigues, Pedro Soares, Regina Guimarães, Rui Canário, Saguenail, Vítor Ribeiro, Vítor Silva Tavares. |