segunda carta de princípios     

   2000 

 

I - ABRIL EM MAIO - ASSOCIAÇÃO

1. A ABRIL EM MAIO considera-se, por período indeterminado, na "Estaca Zero".

Isto não significa fazer tábua rasa do trabalho anterior, mas sim integrar na sua acção a reflexão permanente sobre as questões da "cultura" e das "associações" e também sobre a relação entre as realizações (que promove ou acolhe) e a sociedade em que se insere.

Significa também não evitar, por comodismo, reformular, a qualquer momento, se necessário, os seus objectivos, modos de funcionamento e formas organizativas e encarar o seu encerramento em caso de impasse.

2. A ABRIL EM MAIO é uma estrutura associativa que tem como principal objectivo, na sua fase actual, manter em funcionamento, organizar e gerir um espaço destinado à prática de actividades culturais e de convívio, não pautadas pela lógica do mercado.

Isto não significa abandonar as actividades de "compra e venda" mas encará-las como uma fonte de financiamento importante que dificultará a "instrumentalização" da associação.

Significa também subordinar a "loja" - horário, fornecimentos - às actividades principais em cada momento.

3. A ABRIL EM MAIO adoptará os modos de funcionamento e as formas organizativas que entender mais adequadas ao máximo aproveitamento do referido espaço, segundo os princípios da máxima participação dos sócios e da máxima economia de meios (financeiros e outros).

Isto não significa actuar "à margem da lei", mas manter-se sem formalismos dentro da legalidade estritamente necessária no que respeita a órgãos e registos (contabilidade e actas) .

Significa também evitar a burocratização, através da procura de práticas mais participativas e mais eficazes de tomadas de decisão e de funcionamento do que as previstas na lei.

4. A ABRIL EM MAIO rege-se pelo ideal do auto-financiamento como condição de independência e de liberdade.

Isto não significa que não possa recorrer a subsídios para a concretização de acções de outro modo impossíveis de realizar, mas que deverá decidir sobre as entidades a quem os pede e as condições em que os aceita.

Significa também considerar a necessidade de encontrar fontes permanentes de receitas para lá das quotas e das vendas, tais como o aluguer de alguns espaços, de reactivar sistemas abandonados de trocas e orçamentar cada projecto que levar a cabo de forma a que ele, tanto quanto possível, se pague a si próprio.

5. A ABRIL EM MAIO proporá anualmente um número limitado de "grandes actividades", de características diversas e realizáveis, que serão a sua razão de ser durante o ano em que decorrem.

Isto não significa que estas sejam as únicas actividades no espaço. Pelo contrário, esta programação central deverá prever a apresentação de projectos por parte de sócios ou grupos de sócios e a utilização do espaço por outras associações, grupos ou pessoas, em condições a definir.

Isto significa também que a ABRIL EM MAIO distingue uma "associação" de uma instituição: a sua acção não se norteia pela instalação de uma rotina, mas pela realização "excepcional" de qualquer coisa que só ela poderia ter a ideia de fazer e saberia fazer daquela maneira.

6. A ABRIL EM MAIO faz-se com as ideias e o trabalho voluntário dos sócios, com a consciência da necessária diferença do contributo de cada um, segundo o princípio geral devidamente adaptado "de cada um segundo as suas capacidades e a cada um segundo as suas necessidades".

 

Isto não significa nem a exclusão da profissionalização de elementos, nem a exclusão dos sócios que não trabalhem na associação ou não participem na vida associativa.

Significa, sim, que a ABRIL EM MAIO é o produto da colaboração dos que, profissionalizados ou não, fazem propostas e as realizam e que ela pertence, de facto, aos que propõem, realizam ou ajudam a realizar.

 

7. A ABRIL EM MAIO deverá combater por todos os meios o fechamento em si própria, para o que terá de considerar como parte maior do seu "capital" o contacto e cooperação com outras organizações e pessoas, nomeadamente de outros países.

Isto não significa a transformação da Abril em Maio num gabinete de relações públicas ou numa agência de viagens, mas sim uma saudável desconfiança em relação à palavra "associação" e uma prioridade à prática das relações com os "outros" que manifestem interesses e preocupações afins, aproveitando as oportunidades de cooperação e de intercâmbio na realização de projectos concretos.

Significa também considerá-los destinatários privilegiados do nosso discurso, entendendo a troca de informações, de opiniões e de recíprocas "prestações de serviços" como a "rede" necessária e possível.

II - ABRIL EM MAIO - ASSOCIAÇÃO CULTURAL

 

1. À ABRIL EM MAIO não interessa "o cultural" em que a cultura se transformou, mas a cultura enquanto "conjunto de saberes, de saberes-fazer e de saberes-viver, fundado numa prática colectiva em que os indivíduos e os grupos são actores da sua própria existência".

2. À ABRIL EM MAIO não interessa, portanto, a "cultura" que a política (suportada pelo mercado) utiliza como instrumento de "consenso", a arte que paralisa. Não lhe interessam comemorações, grandes festivais, superproduções, tops, best-sellers...

3. À ABRIL EM MAIO interessam, sim, os produtos culturais (e muitos deles são arte) que, pelo modo como são produzidos e reproduzidos e o valor de uso que podem ter, resistem à instrumentalização política e económica. Aqueles que, de uma maneira ou de outra veiculem ideais de solidariedade e cooperação, visando a transformação, e que combatam o autoritarismo, a ideologia competitiva, o discurso dominante e os ditames do mercado.

4. À ABRIL EM MAIO interessa o trabalho dos intelectuais e dos artistas que, em vez de aceitarem, aprovarem e aplaudirem a ordem estabelecida, a contestam, a criticam e tentam combatê-la.

5. À ABRIL EM MAIO interessa tornar visível ou valorizar aquilo que - pondo questões ou tentando responder ao que nos inquieta, movendo-se "entre a aposta e o erro, a incerteza e a dúvida" - o mercado torna invisível ou desvaloriza.

6. À ABRIL EM MAIO interessa contribuir para a fruição colectiva e a apropriação crítica destas produções culturais.

7. À ABRIL EM MAIO interessa confrontar a "cultura" dos "cultos" com o saber e a linguagem dos "incultos".

ciclos . feiras e bancas . debates . conversas sobre livros e filmes . filmes . exposições. música ateliers . teatro e leituras  .  participação em debates . leitura furiosa  .  viagens e saídas  .  publicações . textos